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Cobras, lagartos e ratos O maior estudo de répteis e pequenos mamíferos do Planalto Central descobre dezenas de novas espécies no Cerrado
Setenta e três espécies de lagartos. Cento e trinta e nove de cobras. Noventa e seis de pequenos mamíferos, entre marsupiais - animais da família do gambá e do canguru - e roedores. Ao contrário do que se possa imaginar, essa biodiversidade não pertence à Floresta Amazônica ou à Mata Atlântica. Todos esses animais integram o Cerrado. Vista antes como apenas um matagal, a região brasileira agora está mudando de status. Dois pesquisadores divulgaram, na semana passada, os resultados do maior mapeamento de répteis e pequenos mamíferos feito na região. O Cerrado originalmente cobria um quarto do território nacional. Seus campos abertos, vegetação rasteira e clima seco deram a ele uma imagem de terreno baldio ou candidato a deserto. 'Havia o preconceito de achar a fauna do Cerrado pequena', afirma Márcio Roberto Martins, professor de Ecologia da Universidade de São Paulo. 'Se compararmos áreas de mesmo tamanho na Amazônia e no Cerrado, veremos que elas têm a mesma quantidade de espécies de animais', diz Guarino Colli, zoólogo da Universidade de Brasília e colaborador no estudo. As novas descobertas devem obrigar os cientistas a rever o número oficial de espécies no Cerrado. 'Acreditava-se que na área havia apenas 120 espécies de répteis, incluindo a família dos jacarés e das tartarugas', afirma o biólogo Cristiano Nogueira, da Universidade de São Paulo e da ONG Conservação Internacional, que apoiou os estudos. 'Esse número já era suficiente para que o Cerrado fosse reconhecido como um ambiente rico em biodiversidade e prioritário para conservação. Mas há pelo menos o dobro de espécies só no grupo de cobras e lagartos.' Durante dois anos de estudos de campo, Nogueira e a zoóloga Ana Paula Carmignotto, da USP, coordenaram equipes de pesquisadores que percorreram 35.000 quilômetros e visitaram dez regiões do Cerrado. Como resultado, catalogaram dezenas de espécies, algumas raras e outras até desconhecidas. Agora, os exemplares coletados passarão por exames de sangue e de pelagem para determinar as principais características das novas espécies. Para coletar os espécimes, os pesquisadores montaram armadilhas, como baldes enterrados no chão ou alçapões. Entre os animais capturados, Nogueira e Ana Paula encontraram oito novas espécies de roedores, três de marsupiais, nove de lagartos e outras nove de serpentes. Além de pelo menos duas novas espécies de cobras de duas cabeças, chamadas anfisbenas. Uma das serpentes, que come lacraias, resiste incólume às ferroadas desse artrópode. A cobra pode ajudar os cientistas a encontrar um antídoto para o veneno da lacraia, que provoca dores fortes, febres e calafrios em humanos.
A
diversidade
conhecida
também
aumentou
entre os
pequenos
mamíferos.
Em 2002,
havia
oficialmente
63 espécies.
Segundo o
trabalho de
Ana Paula,
agora serão
pelo menos
96. De
acordo com a
pesquisadora,
essa
quantidade
tende a
aumentar.
'Há boas
amostras de
apenas 5% da
extensão do
Cerrado',
afirma ela.
'Há muitas
pesquisas
para fazer.'
A
biodiversidade
do Cerrado
ainda é tão
pouco
estudada que
uma das
novas
espécies de
lagarto foi
encontrada
em matas de
galeria
dentro do
Distrito
Federal.
Muito do que
se sabe hoje
sobre o
Cerrado está
ligado à
própria
destruição
do
ecossistema.
'Por
paradoxal
que pareça,
boa parte de
nosso ä
conhecimento
vem dos
resgates de
fauna,
obrigatórios
em áreas que
serão
alagadas
para a
construção
de
hidrelétricas',
afirma
Nogueira.
Os registros de Nogueira e Ana Paula não só enterram a idéia de escassez de fauna, como comprovam a alta taxa de animais que vivem apenas no Cerrado, também chamados endêmicos. 'Pensava-se que a fauna do Cerrado era composta basicamente das mesmas espécies de outros ambientes, como a Caatinga, o Pantanal ou o Chaco', diz Martins. De acordo com o estudo, porém, 45% das espécies de lagartos, cobras e anfisbenas e 23% dos pequenos mamíferos são endêmicos. 'Nas áreas de campos abertos, normalmente as mais desvalorizadas, estão as maiores taxas de endemismo dos mamíferos', afirma Ana Paula. 'Cerca de 73% dos animais encontrados nesses campos só ocorrem ali.' Os dados devem ajudar a formar novas áreas de proteção ao Cerrado. Atualmente, apenas 20% da cobertura vegetal original continua preservada e só 3% dela está protegida sob o título de reserva natural. Agora, as regiões apontadas pelos estudos como donas de um maior número de espécies próprias deverão encabeçar as listas de prioridades para proteção. Como o Cerrado vem dando lugar a pastos e monoculturas, os pesquisadores temem que o ritmo acelerado da destruição possa extinguir espécies que nem chegaram a ser conhecidas e que não existem em outros ecossistemas. 'Tenho quase certeza de que já perdemos grupos de animais sem nem conhecê-los', afirma Nogueira. Um ano depois do levantamento que revelou as espécies novas, ele voltou a um dos pontos de coleta de espécimes, uma propriedade particular. No lugar dos campos naturais, encontrou bois pastando. 'O mesmo processo que demorou 500 anos para acontecer com a Mata Atlântica está acontecendo em 30 no Cerrado', afirma Guarino Colli. Para ele, não é preciso impedir o plantio de soja ou o manejo de gado no Centro-Oeste. O ideal seria criar um plano de desenvolvimento sustentável na região, com investimentos em tecnologia para aumentar a produção sem a necessidade de desmatar áreas de vegetação nativa. 'Infelizmente, nada vem sendo feito', diz Colli. 'Enquanto a madeira do Cerrado valer mais dentro dos fornos das carvoarias do que em pé, a destruição vai continuar.'
#Q:Recém-descobertos
e ameaçados:#
Fotos: Cristiano Nogueira/divulgação e Ana Paula Carmignotto/divulgação |
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